OPINIÃO: o mercado de venda, aluguer e financiamento de carros e motos

Pedro Nuno Ferreira é director da área automóvel do Cetelem

Por: Pedro Nuno Ferreira

O mercado do financiamento é um dos principais indicadores da temperatura da economia.

No negócio do financiamento de carros novos, as financeiras cativas dos construtores obtêm boa parte do negócio ancoradas em campanhas subvencionadas pelas próprias marcas, com valores residuais elevados, em crédito, leasing ou ALD.

As durações destes produtos são mais curtas e incitam a repetir e encurtar o ciclo de troca.

A restante parte é financiada pelos bancos de crédito ao consumo, financeiras especializadas em leasing financeiro, banca tradicional e, residualmente, pelas gestoras de frota.

No financiamento de usados imperam as financeiras independentes.

Os carros ex rent-a-car, os ditos buy back, são uma atração.

Este é seguramente o submercado mais competitivo, todas as financeiras procuram este negócio e a rentabilidade que lhe está associada, com uma tipologia de fnanciamento mais longo e que assegura maior perenidade na carteira.

No financiamento das motos há uma menor sofisticação da parte dos bancos, os produtos de crédito dominam.

Os construtores de motos apreciam muito os produtos com valor residual, ou com uma última  mensalidade mais alta, como ferramenta para encurtar o ciclo de troca, sobretudo num mercado que tem muita paixão na motivação da compra.

Os concessionários de motos são maioritariamente multimarca, a exclusividade implica investimentos avultados, mais difíceis de amortizar quando se tem apenas uma ou duas marcas.

Aqui a exclusividade não impera.

Nos últimos anos desenvolveu-se um negócio de redes de mediação de fnanciamento, dirigidas sobretudo aos comerciantes de carros usados, e mais recentemente também a novos e a motos.

Estes brokers cobrem sobretudo comerciantes de usados de menor dimensão que não geram procura que atraia os bancos de maior dimensão, ou que não têm massa critica para que possam ser acompanhados pelas suas próprias equipas.

Muitos destes negócios têm forte concorrência dos sites de venda online que orientam os compradores para os fornecedores com os quais trabalham.

No financiamento, também as plataformas online ou os call centers dos bancos são um importante meio para levar financiamento aos clientes que preferem tratar directamente do crédito.

A este nível, o mercado português do financiamento é dos mais sofisticados e regulados da Europa, com metodologias de pricing mais evoluídas.

O mercado automóvel e moto já foi dado como moribundo por diversas vezes, as instalações físicas foram vistas como anacrónicas por muitos especialistas, a redução dos carros de função nas empresas como coveiras das gestoras de frotas e o digital apresentado tantas vezes como o modelo que iria dar o fnal cut num setor antiquado.

Os números têm vindo a desmentir este prognóstico.

Ainda que, por vezes, o crescimento e o sucesso escondam inefciências irresolúveis.

A realidade é que, depois da crise, e a partir de 2014, o sector tem-se desenvolvido a um ritmo bastante acelerado.

Veja-se, a título de exemplo, a venda de veículos ligeiros nos primeiros meses de 2017.

Até julho venderam-se mais de 166 mil veículos, um aumento de 8% face ao período homólogo de 2016.

Perspectiva-se, assim, que no final do ano se ultrapassem os 242 mil veículos vendidos no ano passado, e, quem sabe, se ultrapassem os 272 mil vendidos em 2010, o valor mais elevado desde a crise de 2008/2009.

Os players mais sofisticados já prepararam as suas plataformas online para vender, e comprar, carros sem os clientes os verem, já é possível configurar completamente um carro novo online e ter uma visão 3D do interior e exterior, as gestoras de frotas já disponibilizam quotizadores web para os condutores dos seus clientes, os bancos já financiam os bons clientes sem os contactarem diretamente, a avaliação de uma retoma já se faz em plataformas online, que não são mais do que um algoritmo e uma base de dados, o antigo avaliador já não vê o carro, os averbamentos e registos fazem-se pela Internet, obter um financiamento ou um seguro no tablet ou pelo telefone é uma realidade comum e fácil de usar.

Os construtores automóveis e até as gestoras de frotas estão a preocupar-se, e a procurar soluções, adquirindo plataformas de e-commerce, para enfrentar este desafo à posse.

Ainda assim, embora os clientes não deixem de procurar os carros e motos online, a maioria prefere vê-los e senti-los in loco.

No comércio automóvel e moto, no aluguer, no fnanciamento e seguros, os canais ponto de venda e digital coabitam e complementam-se.

Este status quo irá mudar com a electrificação, carros autónomos ou co-propriedade. É inexorável, todos teremos de nos adaptar, e o mercado parece estar a dar-nos tempo para tal.

Mas não nos distraímos com o sucesso e não percamos a oportunidade.