Entrevista a Tex Gunning, diretor executivo da LeasePlan

A LeasePlan quer acompanhar e estimular as novas tendências de mobilidade, bem como aumentar a quota de clientes particulares, afirma o CEO da gestora em entrevista à Fleet Europe, parceira da Fleet Magazine

António Oliveira Martins, CEO da LeasePlan Portugal, falou na 6.ª Conferência Gestão de Frotas sobre os caminhos que a gestora vai trilhar com vista a reforçar a sua posição de liderança na área da mobilidade.

Num futuro onde o automóvel vai ser cada vez mais partilhado e a noção da sua posse passa para segundo plano, as soluções flexíveis e ajustadas às necessidades do momento tornam-se necessárias.

É dessas soluções que Tex Gunning fala nesta entrevista, apontando muito claramente para uma oferta e desempenho cada vez mais abrangente da gestora, por exemplo, enquanto fornecedora de serviços para empresas que operam na área da mobilidade, como o car-sharing ou a partilha de carro.

O CEO global da LeasePlan fala ainda sobre a importância que o negócio de usados vai assumir na empresa e ainda da forma como pretende chegar mais perto do grande público e das suas necessidades, tal como hoje faz junto das empresas.

Motivos que levam a declarar o seu otimismo quanto ao futuro da LeasePlan e de toda a indústria de renting, no momento em que é lançada a nova campanha que, na designação, revela bem o seu propósito: “Any Car, Anytime, Anywhere”.

“Quando cheguei à LeasePlan, a minha primeira prioridade foi entender a indústria e revigorar a empresa. Por isso lançámos o “Power of One LeasePlan”, passando de uma empresa localizada em muitos locais para uma empresa totalmente integrada. Esse processo está em andamento e a progredir rapidamente. É um programa que levará dois, três anos, no mínimo, para completar. É um processo normal em empresas que são ‘órfãos corporativos’ há muito tempo; executa-se o programa para alcançar a excelência operacional.”

Então, por que foi lançado um novo programa?

Porque, ao mesmo tempo, vemos a nossa indústria mudar rapidamente. O EV100 [iniciativa de transporte global projetada para acelerar a aceitação de veículos elétricos pelas empresas, do qual o grupo LeasePlan faz parte do núcleo de fundadores] foi lançado globalmente e a LeasePlan participa na iniciativa.

Plataformas de mobilidade como Uber, Blablacar e Lyft estão a crescer rapidamente. Logo, não nos podemos concentrar apenas na excelência operacional, temos de olhar para o futuro.

Ao fazê-lo, estamos a comparar-nos com as tendências de outras indústrias. Veja o Spotify, por exemplo: interrompeu toda a indústria de CD ao entregar ‘qualquer música, a qualquer hora e em qualquer lugar’.

“Não nos podemos concentrar apenas na excelência operacional, temos de olhar para o futuro”

O Airbnb diz-lhe: não precisa de ir mais para hotéis, pode obter ‘qualquer estadia, a qualquer hora e em qualquer lugar’. E a Uber: ‘qualquer táxi, a qualquer hora e em qualquer lugar’.

Então, o que assistiremos no setor das frotas e da locação em geral é caminharmos na direção de ‘qualquer carro, em qualquer lugar e a qualquer hora’.

Esta evolução só é possível por causa das capacidades digitais que dispomos agora.

 

Como é que o “Any Car, Anywhere, Anytime” vai tomar forma?

A tendência, a longo prazo, de passar da propriedade do carro para o seu uso via assinatura está a começar agora. As pessoas já conseguem obter todo o tipo de coisas através de rendas mensais. Estão acostumados ao modelo para obter música, para organizar viagens e também vão querer ter ‘qualquer carro, a qualquer hora e em qualquer lugar’.

É por isso que penso que o crescimento da nossa indústria será muito forte nos próximos cinco a dez anos, em todos os segmentos de mercado: nas grandes empresas, nas PME, no segmento dos particulares e no mercado de plataforma de mobilidade.

Usados são uma vertente importante do negócio

A LeasePlan está a alargar o seu mercado de carros usados. Porquê?

Há um novo mercado emergente: o mercado de carros usados premium, com três a quatro anos.

Tradicionalmente, o comércio de carros usados tem má reputação. Muitas vezes, o cliente não tem certezas sobre a compra e está insatisfeito com o resultado. Mas há dois fatores que estão a mudar tudo isto.

Em primeiro lugar, os carros de hoje têm mais qualidade, não terminam após 80 mil quilómetros. Podem facilmente chegar aos 200 mil quilómetros e, mesmo assim, permitir uma boa experiência como carro em segunda mão.

Em segundo lugar, a crise financeira tornou as pessoas mais conscientes do preço dos carros, mostrando-lhes que podiam optar por ter um Audi em segunda mão, com grande qualidade, que talvez não pudessem pagar se fosse novo.

“As pessoas já conseguem obter todo o tipo de coisas através de rendas mensais. Estão acostumados ao modelo para obter música, para organizar viagens e também vão querer ter ‘qualquer carro, a qualquer hora e em qualquer lugar’”

E como é que vai acontecer na prática esse negócio de carros usados?

Lidamos com 300 mil carros que terminam contrato todos os anos. Costumávamos entregar os nossos carros usados aos grossistas e eles sabem como distribui-los ao retalho. Mas, agora, a internet permite-nos conversar diretamente com os consumidores. Podemos mostrar os antecedentes do carro, responder a questões objetivas, revelar avaliações de terceiros, etc….

Então, chegamos ao espaço B2C com a internet como canal principal e conversar com os compradores.

E é aqui (na internet) que vamos oferecer ‘qualquer carro, a qualquer hora, em qualquer lugar’, onde poderá comprar os nossos carros usados ou simplesmente fazer um renting de usados.

Onde é que o consumidor vai poder ver esses carros usados?

Até ao final deste ano vamos lançar 20 espaços em toda a Europa, onde o consumidor pode experimentar os carros depois de os escolher online. Chamamos a essas lojas “click and brick’ e no próximo ano vamos chegar às 50 lojas.

Em resumo: para novos renting a indústria vai experimentar um crescimento elevado. Nos usados estamos a criar um espaço, onde nós, como indústria, vamos substituirmo-nos aos negociantes. É um mercado muito atraente, porque está a crescer e porque os valores residuais têm-se mantido estáveis nos últimos anos.

Ambas as tendências são caminhos para nós oferecermos ‘qualquer carro, a qualquer hora e em qualquer lugar’. De momento acho ainda muito caro entregar qualquer carro, a qualquer hora, em qualquer lugar e a qualquer preço, mas é uma visão que nós, como LeasePlan, estamos a abraçar.

“Elétricos: vamos dar o exemplo”

Outro tema quente: mobilidade elétrica. Qual é posição da LeasePlan sobre esta questão?

Até agora, as previsões eram que a penetração de viaturas elétricas seria muito baixa, que a infraestrutura era insuficiente, que a tecnologia das baterias não estava preparada, e por aí adiante.

Mas veja a direção do mercado: a regulamentação dos estados, a agenda das mudanças climáticas, a responsabilidade social das grandes empresas e, especialmente, uma nova geração de jovens genuinamente preocupados com as mudanças climáticas.

Conclusão: talvez possamos não saber exatamente quão rápido vai ocorrer a eletrificação, mas nós, como empresa responsável, vamos ajudar a conduzir a mudança na direção certa.

Por isso nos comprometemos com o EV 100. A nossa própria equipa de colaboradores vai começar a conduzir EV. Isto é um ‘win-win’: nós tornamo-nos um modelo a seguir, mas também aprendemos trilhando esse caminho.

“Lidamos com 300 mil carros que terminam contrato todos os anos. Costumávamos entregar os nossos carros usados aos grossistas. Agora, a internet permite-nos conversar diretamente com os consumidores”

Isso não é um pouco um ato de fé?

Tenho certeza de que os construtores vão propor toda uma gama de elétricos. Estou absolutamente convencido de que a infraestrutura será construída, se os consumidores assim quiserem. Estamos na convergência de vários fatores que impelem a eletrificação.

Por isso é que estou tão entusiasmado com a indústria de frotas e renting. Estamos na vanguarda. Nós realmente podemos fazer isto funcionar!

Os construtores têm que investir centenas de milhões no desenvolvimento de novos veículos.

Nós, na indústria do renting, somos muito mais ágeis, porque não precisamos fazer apostas tão maciças. Não corremos riscos tão elevados sobre os ativos, porque renovamos os nossos carros todos os anos.

Então, podemos passar para o elétrico quando chegar a hora certa.

“Não estou nervoso com o diesel”

Faz o mesmo para reduzir o envolvimento com o gasóleo?

As empresas de locação têm carros diesel recentes. Nenhum de nós tem diesel Euro 1 a 4, quase todos os nossos veículos estão em conformidade com os padrões Euro 5 e Euro 6.

É uma discussão principalmente entre reguladores e construtores.

Não estou nervoso com a discussão sobre o diesel. Se necessário, vamos mover do diesel para carros híbridos e elétricos.

A indústria de locação é uma indústria de serviços, logo, novamente, somos muito ágeis.

Em suma: está muito entusiasmado com o futuro, não apenas para a LeasePlan, mas para toda a indústria.

De facto! À medida que passamos da posse para a renda, a indústria só pode crescer mais depressa. Olhe para as plataformas de mobilidade como Uber e Lyft: todos precisam de carros, mas nenhum deles quer possuir as suas próprias frotas. Logo, é uma oportunidade emocionante. Os riscos para a nossa indústria são limitados.

Além disso, vamos operar em dois mercados: o de arrendamento e o de carros em segunda mão, onde iremos oferecer ‘qualquer carro, a qualquer hora e em qualquer lugar’.

E quando vai ser lançado o ‘Any Car, Anytime, Anywhere’?

Para o mercado de carros usados, podemos fazê-lo já. Para o mercado de automóveis novos, é uma aspiração.

Estamos a transitar da oferta de um ‘carro-como-um-serviço’ para a oferta de uma ampla gama de serviços ao redor do carro.

É muito emocionante para nós liderarmos o caminho para o futuro da mobilidade, onde, realmente, vamos poder oferecer aos nossos clientes ‘qualquer carro, a qualquer hora e em qualquer lugar’.

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