Entrevista: Fabrice Crevola, Administrador-Delegado da Renault Portugal

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É verdade que o Diesel não está na moda. Temos que investir, temos que acrescentar tecnologia para respeitar as normas. O custo vai continuar a aumentar e isso não é “sexy”

É notório o entusiasmo com que Fabrice Crevola fala sobre a eletrificação de viaturas e novos conceitos de mobilidade.

O administrador-delegado da Renault Portugal transmite assim a visão da marca sobre o futuro da utilização do automóvel que, diz, não será apenas de posse e de um tipo de viatura.

Reconhecendo que as viaturas elétricas ainda têm limitações, Crevola não deixa de chamar a atenção para que um ZOE consiga melhores valores de TCO do que um modelo da mesma marca a combustão interna.

No entanto, o Diesel ainda não morreu e a marca vai continuar a apostar nesta tecnologia, mesmo que não tenha a sedução de outras propulsões.

Que novidades é que se podem esperar a médio prazo em relação à estratégia da Renault para mobilidade elétrica?

Somos a única marca com uma gama completa e, no caso das empresas, agora com o exemplo do ZOE, temos dados de TCO muito interessantes.

Cálculos de TCO do ZOE comparados com o Clio, que mostram que o custo de utilização do ZOE é mais baixo.

É evidente que não é para todas as expectativas nem para todas as utilizações, devido à quilometragem anual.

Mas para um carro de uma empresa que faça 15 mil quilómetros por ano, a solução mais económica é o ZOE.

Com isenção de IVA, de IUC, entre outros apoios, acaba por ser mais barato do que um carro térmico.

Não é só “green motion”, é uma solução válida e vai ser cada vez mais verdade.

Nos comerciais, têm ainda o Kangoo elétrico…

Sim.

É um carro para as empresas, perfeito para entregas, mas com um amplo volume.

Mas no último quilómetro [last mile, conceito de logística sobre entregas em zonas surbanas centrais de difícil acesso] também vamos ter que desenvolver soluções.

É o caso do protótipo que acabámos de apresentar, o EZ PRO [um veículo autónomo de distribuição].

Estamos a trabalhar com outras empresas para as soluções do futuro.

Hoje temos uma Master elétrica, mas é uma primeira proposta com custos ainda altos. São produções de pequenos volumes, mas vai evoluir, porque o desafio do último quilómetro é um dos desafios do futuro.

Portanto, a Renault está a pensar em entrar também em soluções de mobilidade, além de produto automóvel?

Algumas, sim.

Já não falamos de carros, falamos de mobilidade, e estamos a trabalhar para a mobilidade do futuro.

A mobilidade do futuro são carros elétricos, são carros autónomos, é mais “carsharing”.

A utilização do carro vai mudar. As pessoas já não vão comprar um carro, vão comprar um serviço de mobilidade.

E isso pode ser, como já falámos, um carro elétrico durante a semana, um carro híbrido para ir de férias, fazer uma viagem no fim-de-semana e, se calhar, durante a semana vão utilizar um carro-robô autónomo em “carsharing”.

É um novo mundo que se abre.

As rendas dos carros elétricos acabam por ser menos competitivas do que num carro a combustão, sobretudo por causa da incerteza quanto aos valores residuais. Acha que esse problema vai atenuar?

Já começou a atenuar-se.

Com os primeiros carros elétricos, o medo fazia com que os valores residuais ficassem muito baixos e a renda não podia ser muito competitiva.

Mas as coisas já mudaram. Estamos a trabalhar muito com as principais locadoras e mesmo os gestores de frotas e estão a pedir cada vez mais carros elétricos.

Com isto, estão a aumentar os valores residuais nos carros elétricos. Acabamos por ter que fazer uma reavaliação dos valores residuais e o do ZOE, por exemplo, está a aumentar.

O medo que existia no passado vai desaparecendo.

Existe ainda uma questão tecnológica aqui associada a isto, ou seja, se eu hoje tenho um carro elétrico com uma capacidade de bateria que no futuro não se verifica…

No negócio automóvel é muito importante assegurar o futuro de um carro.

Em França, a Renault já desenvolveu uma solução de carros usados elétricos e funciona muito bem.

Nem todas as pessoas precisam de uma autonomia de 500 quilómetros com uma carga. Há muitas, sobretudo nas grandes cidades, que só precisam de uma autonomia de 100 quilómetros e depois em casa tem a “wallbox”.

A sua vantagem é que este ZOE que comprou, sendo um usado com dois ou três anos, teve um preço muito mais barato.

Estão a pensar trazer esse programa para Portugal?

Já falámos disso. Vamos ter que desenvolver esta atividade, porque agora os volumes começam a ser importantes.

Qual é a lógica de introduzir híbridos na gama depois de começar com os elétricos, quando normalmente o mercado faz ao contrário?

Nunca dissemos que o objetivo era converter todo o mundo ao elétrico, porque sabemos perfeitamente que não é possível.

E a resposta híbrida é também uma resposta muito válida.

O desafio é este: conseguir ter uma proposta para dar a possibilidade de terem um modo elétrico nas deslocações na cidade e, para sair, um modo térmico.

Como é que ficam os investimentos em carros a gasolina e Diesel?

Um carro elétrico não vai matar todas as outras tecnologias.

Neste momento, é verdade que o Diesel não está na moda.

É outro discurso, não sei se este ataque ao Diesel é tão justificado. Mas, na verdade, temos que investir, temos que acrescentar muita tecnologia nos motores a Diesel: com FAP, com NOx trap.

Para respeitar as normas, para eliminar todas as partículas, o custo vai continuar a aumentar.

E não é “sexy”.