Há espaço na ACAP para os operadores de mobilidade? (III)

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Na terceira parte da entrevista a Hélder Pedro, secretário-geral da ACAP, são abordadas as novas tendências de mobilidade e as consequências práticas para o todo o sector automóvel, incluindo naturalmente a questão das receitas fiscais.

Afinal, a multiplicação de serviços e soluções com ofertas neste sentido representa uma ameaça ou uma oportunidade para a indústria do automóvel? E será que um dia esses novos operadores podem vir a fazer parte de uma associação como a ACAP?

(No final do texto estão também as ligações para as partes anteriores desta entrevista dividida em quatro partes)

Está a surgir uma nova realidade de mobilidade onde a propriedade do automóvel parece ser menos exclusiva e mais partilhada. Em que medida esta tendência pode constituir uma ameaça para a indústria do automóvel?

Há muitos anos que a indústria automóvel está atenta a esta alteração do conceito de mobilidade.

A conectividade é uma realidade que está expandir-se tanto nos ligeiros como nos pesados e os veículos autónomos, gradualmente, vão fazer também parte do nosso panorama.

Mas o aumento dos carros eléctricos e das energias alternativas depende muito da procura e da evolução de conceitos como o da partilha.

De facto, a partilha é uma realidade onde se tem investido muito nos últimos anos, também por parte dos construtores, porque creio que a encaram como uma oportunidade.

Estamos a falar de um novo conceito de utilização totalmente diferente do que é feito agora, um desafio a que muitos construtores de automóveis estão neste momento já ligados.

Como disse, tudo isto depende da procura e de como vai ser essa procura. Não a vemos como uma ameaça, apenas uma nova realidade de mobilidade onde os construtores automóveis estão a investir milhões, fazendo parcerias com empresas já existentes ou criando outras.

E para uma parte importante da receita fiscal anual do Estado?

A questão da receita é importante e deve ser discutida e naturalmente preocupa-nos no que toca aos impostos.

Como referia em relação à tributação autónoma, vivemos de surpresa em surpresa. Chega um Governo acha que precisa de mais 40, mais 50, mais 100 milhões, e o automóvel é a via mais fácil, porque é um bem que todos utilizam e que tem matricula, está identificado, tem numero de chassis…

Seria bom incluir no plano da transição energética aquilo que será a tributação do automóvel, como é que se perspectiva com novas formas de mobilidade, com cada vez mais carros eléctricos… esse será o grande desafio fiscal que temos de discutir nos próximos anos.

E a ACAP? Também está preparada para essa realidade? Pode vir a integrar novos players, novos tipos de operadores de serviços, por exemplo?

Estamos preparados. Com outros países fazemos um benchmarking europeu para ter uma perspectiva de um futuro próximo.

Como sabe, não integramos só marcas automóveis. Temos todos os sectores representados, desde concessionários a máquinas agrícolas e industriais, motos, pneus, a própria produção industrial, náutica, caravanas ou o aftermarket, que é um sector importantíssimo na nossa área.

Existimos há 109 anos e temos condições para nos adaptarmos àquilo que é o mercado do sector automóvel. Certamente vamos ter lugar para os novos players da mobilidade, sem dúvida.

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