Opinião: A mobilidade como um serviço

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POR MIGUEL VASSALO, COUNTRY MANAGER AUTOROLA. É COLABORADOR REGULAR DA FLEET MAGAZINE

A chave para a construção de áreas urbanas mais prósperas e sustentáveis está assente no conceito de cidades inteligentes.

Uma das suas componentes é naturalmente a mobilidade inteligente e neste sentido a mobilidade como um serviço (conhecida pelo acrónimo anglosaxónico MaaS – Mobility-as-a-Service) encerra a solução para resolver os actuais desafios da mobilidade citadina de uma forma inteligente.

Hiper-urbanização, alterações climáticas, transformações demográficas e societais são algumas das megatendências que colocam pressão nas actuais infraestruturas de transportes, apresentando-se como evidentes obstáculos a uma mobilidade eficiente de pessoas e bens.

Os recentes desenvolvimentos no campo das tecnologias de informação e comunicação (TICs) tais como a banda larga móvel e a generalização dos smartphones com aplicações e serviços baseados na geolocalização têm aberto portas para novos modelos de negócio, colocando as expectativas dos consumidores num superior patamar de exigência.

A mobilidade como um serviço pretende tirar partido da digitalização e disponibilidade crescente de dados para responder aos actuais desafios do mundo físico. Propõe-se fazer a ponte entre transportes públicos e operadores privados de mobilidade promovendo a desejável integração em contraponto com o actual modelo fragmentado, construído por silos não comunicantes e onde o consumidor é deixado inteiramente à sua sorte.

Sampo Hietanen actual CEO da MaaS Global, pioneira na prestação comercial deste tipo de serviço, definiu mobilidade como um serviço num artigo seminal em 2014 como “um modelo de distribuição de mobilidade no qual as principais necessidades de transporte de um consumidor são atendidas através de uma interface e fornecidas por um prestador de serviços”, sendo que “normalmente, os serviços são agrupados em pacotes, semelhantes aos planos fornecidos pelas operadoras de telecomunicações”.

Pegando numa definição mais recente proposta pela MAAS Alliance analisemos em detalhe. A mobilidade como um serviço pretende integrar várias formas de serviços de transporte num único serviço de mobilidade disponível a pedido.

Ou seja, o operador de MaaS oferece um conjunto diversificado de opções de transporte incluindo transportes públicos, táxis, TVDEs, carros, motas, bicicletas e trotinetas partilhadas, boleias, aluguer e subscrição de automóvel ou combinação dos vários.

Na prática o consumidor consegue através uma única aplicação planear a sua viagem, reservar, pagar, receber o seu bilhete e aceder a informação em tempo real.

A aplicação ajuda ainda a selecionar qual o melhor meio de transporte ou combinação intermodal ou multimodal com base em critérios como a rapidez,  preço, impacto para a saúde e para o meio ambiente, ajustando em tempo real de acordo com as condições climatéricas ou de trânsito.

Em suma a mobilidade como um serviço propõe oferecer uma alternativa mais económica e sustentável ao actual padrão de automóvel particular por defeito, apresentando conveniência equivalente, trazendo o famoso modelo de subscrição para o mercado dos transportes.

As despesas com deslocações e transportes representam uma fatia significativa do orçamento mensal das famílias.

Estima-se que esta indústria possa valer triliões pelo que empresas provenientes dos mais variados sectores começam a posicionar-se disponibilizando serviços com diversos graus de integração.

Pioneiros como a MaaS Global na Finlândia e UbiGo na Suécia deram os primeiros passos há poucos anos. Alguns dos tradicionais operadores de transportes públicos, espinha dorsal da mobilidade como um serviço, pretendem assumir um papel central como integradores.

Grandes construtores automóveis fazem avultados investimentos com o objectivo de permanecer relevantes numa nova realidade, já para não falar em grandes tecnológicas ou outras com relação e acesso directo a muitos consumidores. Ainda que no momento todos sejam projectos eminentemente locais, está a ser feito um grande esforço para que a mobilidade como um serviço seja uma solução global.

Apesar de todos os desafios que se colocam a tamanho empreendimento, a mobilidade como um serviço vai alterar significativamente a forma como nos deslocamos no meio urbano.

Todo um novo ecossistema emergirá, onde múltiplas organizações colaboram em rede derrubando as actuais fronteiras tradicionais, optimizando a oferta e a procura. O papel do sector público evolui de simples provedor e gestor de infraestrutura para regulador e promotor de serviços de mobilidade, visando a melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade.

O consumidor passa a estar não só no centro do ecossistema de transportes como é seu co-criador.