Fabrice Crevola é administrador-delegado Renault Portugal

Por: Fabrice Crevola, Renault

No sector automóvel é muito comum ouvir-se dizer “esta indústria mudará mais nos próximos 10 anos que nos últimos 50”.

A verdade é que esta frase já não é sequer uma previsão. A indústria automóvel já vive um momento de profunda mudança.

Quem há 10 anos – com exceção da Aliança Renault-Nissan – apostaria que a eletrificação seria o caminho a seguir pelo automóvel?

Para o Grupo Renault a eletrificação não é uma solução de recurso, é uma aposta estratégica, porque acreditámos, como acreditamos hoje, que é preciso encontrar soluções alternativas para tornar o automóvel mais sustentável.

Neste período de mudança a indústria automóvel tem mostrado ser capaz de se adaptar, de investir, de apresentar novas soluções. Em resumo, de se preparar para o futuro.

Mas talvez nenhuma mudança seja tão drástica como aquela que vai acontecer em 2020.

A imposição do CAFE (Corporate Average Fuel Economy) que obriga os construtores a respeitar um limite máximo de emissões de CO2 na gama que vendem na Europa (e não só na Europa) é um desafio de monta.

A imposição do CAFE é uma legítima decisão política. Mas será que esta decisão foi acompanhada, pelos mesmos decisores, das medidas que possibilitam aos construtores automóveis cumpri-la?

Os 95g/km do CAFE em 2020 querem dizer essencialmente o seguinte:

Todos os automóveis a gasolina, existentes no mercado, emitem mais do que o limite. Idem para o GPL.

A esmagadora maioria dos automóveis diesel (que do ponto de vista das emissões de CO2 são mais eficazes, como sempre foram, do que os automóveis a gasolina) no mercado tem emissões superiores a 95g/km.

Ou seja, cerca de 93% dos automóveis que se vendem hoje (em Portugal como na Europa com exceção da Noruega) estão acima do limite máximo de emissões que é permitido aos construtores.

Portanto é obrigatória uma rápida eletrificação do mercado, sob pena de o sector automóvel pagar multas que podem ascender aos milhares de milhões de euros e que, num cenário que não é assim tão inverosímil, terá certamente consequências negativas sobre um dos principais setores empregadores na Europa.

Nos próximos meses assistiremos a uma “avalanche” na comercialização de modelos elétricos e eletrificados (híbridos) entre os quais vários que serão comercializados pelo grupo Renault.

Isto é o sector a fazer o seu trabalho, a investir massivamente em novas tecnologias.

Mas a realidade de hoje, quase no final de 2019, é que estes modelos irão entrar num mercado que vale 5% a 6% das vendas totais.

Está nas mãos dos decisores políticos tomarem as medidas que possam incentivar um crescimento do mercado de automóveis elétricos e eletrificados a um ritmo muitíssimo mais acelerado.

Incentivar a compra é importante!

Os incentivos existem, mas podem ser melhorados, mais abrangentes e/ou de atribuição mais equitativa porque os automóveis elétricos ainda são percecionados como mais caros face aos modelos a motor de combustão.

Mas em Portugal, olhamos com muita preocupação para o lento (mesmo muito lento) desenvolvimento da infraestrutura de carregamento. Portugal foi pioneiro nesta matéria mas, deixámo-nos atrasar.

Sem uma infraestrutura que assegure que um automóvel elétrico tem o mesmo conforto de utilização que o seu equivalente térmico nunca este mercado ganhará a dinâmica que é precisa.

E é precisa porque se os construtores automóveis, no seu conjunto, investem somas colossais para responder aos desafios que lhes são colocados, penso que o mínimo é que lhes sejam dadas condições para que as soluções possam vingar.

Sob pena de penalizar com coimas de milhões de euros quem investiu massivamente para desenvolver a solução.