O financiamento especializado continua a ser o suporte essencial das compras de muitas empresas, nomeadamente para a aquisição de veículos.

Com o leasing a manter-se como o modelo preferencial das compras profissionais, o renting está gradualmente a ganhar espaço enquanto forma de alguns particulares poderem aceder ao automóvel. Por razões não muito diferentes das que motivam os empresários e empresas: maior flexibilidade, menos burocracia bancária e maior acessibilidade financeira, além das vantagens decorrentes do facto de, uma prestação mensal fixa e previsível, poder incluir vários encargos associados à utilização do automóvel ao longo do contrato.

Leasing

Este quadro elaborado pela Deloitte Business Consulting SA é importante para perceber a evolução do leasing ao longo da década, o desempenho durante a anterior crise financeira e a sua progressão até 2019, ano em que o crescimento revela sinais de abrandamento.

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O gráfico que se segue demonstra a distribuição por tipo de veículo, sendo que as viaturas ligeiras, em contexto de evolução económica, mostram ser preponderantes para a dimensão deste modelo de financiamento, com uma forte evolução ao longo da década.

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Renting

Em evolução desde 2014, depois da queda da procura verificada na crise que afetou Portugal nos anos imediatamente anteriores, a atividade do renting revelou os mesmos sinais de abrandamento em 2019, com uma queda mais acentuada ao nível da UE.

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Sem surpresa, no gráfico que se segue verifica-se a predominância de automóveis ligeiros de passageiros em renting, face ao número dos veículos comerciais adquiridos com recurso a este modelo de financiamento.

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Ainda no que respeita ao renting, os quadros seguintes, também elaborados pela Deloitte Business Consulting SA, evidenciam o peso dos três modelos principais de aquisição automóvel em Portugal, face ao volume total de viaturas novas vendidas em cada ano.

Este primeiro dá uma noção do desempenho em relação à média europeia:

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Este fornece a dimensão de cada modelo de financiamento, com a ressalva do leasing contemplar modelos novos e usados, enquanto o renting contempla apenas modelos novos.

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E neste, bastante interessante, a quebra percentual do crédito tradicional, eventualmente devido à entrada em vigor de regras mais restritas de acesso a este tipo de financiamento. Quando comparado com o quadro anterior, verificamos que, em 2019, parece ter havido uma transferência das preferências de aquisição do crédito tradicional para o renting.

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Financiamento especializado em 2020

Com o ano prestes a terminar, os dados mais recentes relativos aos primeiros nove meses fornecidos pela ALF mostram que:

  • Leasing mobiliário com um investimento de cerca de 1,17 mil milhões de euros, em queda global de 29,5% face ao período homólogo;
  • Uma quebra mais elevada no número de contratos (cerca de 67%) fez elevar o valor médio de cada contrato de 40 mil para 42 mil euros;
  • De um total de perto de 1,17 mil milhões, 572 milhões de euros foram utilizados na aquisição de 21.663 viaturas ligeiras, 69% das quais destinadas a empresas;
  • Renting com uma quebra acumulada de 23,2% no número de viaturas nos primeiros três trimestres de 2020 e de 22,6% no valor financiado;
  • Porém, apesar de um ligeiro decréscimo de 0,2% da frota gerida pelas locadoras (em número de viaturas), verifica-se um crescimento de 2,2% no valor contabilístico da frota com investimento.

Com os meses de novembro e dezembro sujeitos a diversas restrições por efeito do confinamento, não se perspetivam  grandes variações percentuais face aos valores  percentuais registados nos primeiros nove meses.

Perspetivas para o financiamento especializado em 2021

O clima de incerteza económica, alterações de hábitos e necessidades de mobilidade não permitem antever grandes certezas quanto ao desempenho do mercado automóvel em 2021.

Isto acrescenta também algum grau de incerteza ao desempenho do financiamento especializado, uma vez que dele está muito dependente a necessidade de transporte das empresas.

Acresce a circunstância das alterações do cálculo de ISV, quer para as viaturas híbridas (agravando o valor), quer para viaturas usadas (desagravando o valor), poder produzir efeitos sobre a dinâmica do mercado automóvel em Portugal.

Isso mesmo ficou percetível no primeiro painel da Convenção da Anecra que está a decorrer até ao dia 11 de dezembro, com a maioria dos operadores a reconhecer não ter grandes perspetivas para o primeiro trimestre de 2021.

Outra constatação deste primeiro painel, é o esperado crescimento do mercado de usados e, face à pouca oferta de viaturas em Portugal, alguns operadores encaram o recurso à importação de automóveis usados de outros Estados Europeus.

Entre os factores que justificam esta necessidade está o facto de grandes operadores e centros de retalho que anteriormente abasteciam os pontos tradicionais de revenda terem desenvolvido modelos próprios de venda directa ao consumidor final, a redução significativa das aquisições do canal do rent-a-car em 2020 e o prolongamento da utilização da frota em algumas empresas, seja por redução de quilometragem das viaturas devido ao regime de teletrabalho, seja pela faculdade de extensão de uso gerada pelo regime de moratórias em vigor, algo de que também podem beneficiar os clientes particulares.

Sobre este assunto, a FLEET MAGAZINE, inquiriu a ALF sobre o impacto das moratórias de crédito no Leasing Mobiliário.

A resposta da ALF regista a preocupação em relação à alteração dos termos contratuais poder ter efeitos financeiros danosos para a empresa que presta o financiamento (por exemplo, a extensão do prazo do financiamento produz naturais implicações sobre o valor residual das viaturas sujeitas a essa moratória), havendo ainda implicações burocráticas e custos acrescidos gerados pela necessidade das alterações contratuais implicarem novos registos junto da Conservatória Automóvel. Registos que podem chegar a ser sucessivos devido ao prolongamento dessas mesmas moratórias.

“É um apoio importante à economia nacional que contribui para evitar um elevado aumento de incumprimento no curto-prazo, enquanto não se verifica a esperada retoma da economia. É um apoio necessário, é um apoio que as empresas de leasing realizam, e se disponibilizaram desde do primeiro momento a fazer, muitas vezes com custos para si na medida em que por exemplo os bens locados se vão desvalorizando com o tempo e o prorrogar dos contratos, ficando desequilibrados relativamente ao que era a expetativa inicial do seu valor residual de mercado, aquando da realização da operação.

Ao nível do Leasing Mobiliário, ou seja, nos leasings de viaturas ligeiras e pesadas e dos equipamentos sujeitos a registo, o principal impacto verifica-se ao nível operacional e burocrático que a aplicação das moratórias implica, e o grande esforço que é empreendido pelas Locadoras Financeiras para implementar uma moratória que já foi prolongada duas vezes, e que deverá vir a ser prolongada novamente.

Este trabalho operacional tem sido prejudicado por na legislação da Moratória Pública em vigor, não se ter acautelado o facto da locação financeira mobiliária implicar um registo do bem locado junto da Conservatória do Registo Automóvel. Sempre que a moratória é prolongada, é necessário proceder a uma adenda ao contrato e promover um novo registo junto da Conservatória, com os custos inerentes e as dificuldades acrescidas de diligências no meio de uma pandemia e estado de emergência.

A ALF já manteve contactos com o Ministério das Finanças e estamos expectantes que uma nova alteração ao Decreto-Lei n.º 10-J/2020, acautele esta questão e permita promover as alterações dos registos de forma simplificada e isenta de emolumentos, de acordo com o espírito de auxilio às empresas e famílias que está na génese da própria Moratória Pública”.