São cada vez mais visíveis nas nossas estradas os veículos automóveis movidos parcial ou totalmente a energia elétrica.

Mas se a oferta de veículos automóveis se tem vindo a adaptar às novas tendências, alargando cada vez mais o número de modelos disponíveis que são movidos, no todo ou em parte, através de energia elétrica, importa perceber o impacto que o aumento do consumo precisamente de energia elétrica poderá ter sobre a economia e o ambiente e se o nosso país terá capacidade de aumentar a produção da energia elétrica necessária com base em fontes renováveis, uma vez que, só assim, se conseguirá assegurar o impacto positivo sobre o meio ambiente que todos esperamos que esta mudança de paradigma ao nível da mobilidade nos possa trazer.

Neste sentido, importa destacar o Estudo realizado em 2019 pela Deloitte para a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), que visou avaliar o impacto da eletricidade de origem renovável, no sistema elétrico e na economia nacional, tendo por base o período decorrido entre 2014 e 2018, bem como projetar esses impactos no contexto da política energética e nos objetivos estabelecidos pelo país até 2030 (ano em que se estima que o sector das energias renováveis em Portugal possa contribuir em mais de 80% para o mix de produção de eletricidade no país).

  • Impacto económico/social do sector

Em termos de impacto no PIB, o Estudo em referência sinaliza que, no período 2014-2018, a contribuição das fontes de energia renovável atingiu cerca de três mil milhões de euros por ano (em média), o que equivale a aproximadamente 1,7% do PIB. Para 2030, esta contribuição deverá ascender a cerca de 11 mil milhões de euros (cerca de 4,6% do PIB).

Ao nível da capacidade de geração de emprego, o Estudo concluiu que, em 2018, o sector de produção renovável tinha cerca de 46 mil colaboradores (gerando um PIB por trabalhador de aproximadamente 70,7 mil euros). A estimativa do número de colaboradores das fontes de energia renovável em 2030 é de cerca de 160 mil (então com uma contribuição anual estimada para a Segurança Social de cerca de 116 milhões de euros).

Quanto ao imposto sobre os lucros que é estimado para o conjunto das empresas do sector de produção de eletricidade com base em fontes de energia renovável, o Estudo aponta para um total acumulado de cerca de seis mil milhões de euros com IRC e Derrama Municipal no período 2019-2030 (o que equivale ao total das receitas do IRC arrecadadas em 2019 pelo Estado de todas as empresas, ainda antes da queda significativa destas mesmas receitas verificadas em 2020 em virtude da pandemia provocada pela doença da COVID-19).

OPINIÃO: Mobilidade sustentável

  • Impacto ambiental do sector

Já no que se refere à contribuição da produção elétrica através de fontes de energia renovável para o ambiente, as conclusões do Estudo indicam que a produção de energia renovável, entre 2014 e 2018, permitiu evitar a emissão de mais de 55 milhões de toneladas de CO2 e poupar mais de 427 milhões de euros com licenças de CO2.

No período entre 2018 e 2030, é estimado um aumento de 6,7% por ano dos valores de emissões evitadas de CO2 em virtude do reforço previsto da utilização de fontes de energia renovável na produção de eletricidade.

  • Impacto do sector na dependência energética

Com referência ao impacto da dependência energética, o mesmo é estimado no Estudo com base na quantificação do efeito de substituição de importações de energia elétrica e de combustíveis fósseis para geração de eletricidade, nomeadamente carvão e gás natural, bem como na determinação do impacto dessa substituição na taxa de dependência energética.

Assim, as conclusões do Estudo apontam para que em 2018 se evitaram cerca de 1,2 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis em Portugal para a produção de eletricidade.

Para o período de 2018 a 2030, as poupanças nas importações de combustíveis fósseis deverão ascender a mais de 27 mil milhões de euros.

Contudo, importa salientar que, em 2018, a dependência energética de Portugal face ao exterior atingiu quase 77%, sendo expectável uma redução gradual dessa dependência de combustíveis fósseis importados até 2030, quando se espera atingir os 65,8%.

Podemos assim concluir que são múltiplos os planos onde se esperam benefícios para o país decorrentes do aumento da capacidade de produção elétrica com base em fontes de energia renovável, aos quais se acrescentam a capacidade de fornecer de modo mais autónomo e ambientalmente sustentável, energia elétrica para o crescente número de veículos automóveis movidos a este tipo de energia e permitindo a gradual redução do recurso a veículos movidos a motor de combustão.

Espera-se que o quadro regulatório e tributário aplicável aos veículos ambientalmente mais sustentáveis continue a incutir uma diferenciação positiva face às formas de mobilidade mais poluentes.