Num mundo empresarial cada vez mais orientado por critérios de sustentabilidade, o conceito ESG (Environmental, Social and Governance) passou de tendência a imperativo estratégico, assumindo um papel central na forma como as empresas definem a sua estratégia e operam os seus ativos. A crescente pressão regulamentar, por parte da União Europeia, reforça esta tendência e obriga as empresas a avaliar e reportar de forma rigorosa a sustentabilidade das suas operações.
O Regulamento da Taxonomia, de acordo com a versão em vigor do Regulamento EU 2020/852 e respetivos Atos Delegados, é ambicioso e visa criar um sistema de classificação uniforme e com uma linguagem comum para atividades económicas sustentáveis.
A sua aplicação ao sector da mobilidade, e em particular à Gestão de Frotas, implica desafios significativos. A sua aplicabilidade prática revela-se complexa, especialmente na área da mobilidade corporativa. A dificuldade na recolha de dados e a dependência de múltiplos stakeholders (operadores de renting, fornecedores de pneus, gestores de energia, etc.) criam um cenário onde o cumprimento dos critérios técnicos se torna oneroso e, por vezes, irrealista para algumas empresas.
Mas como pode uma atividade ser classificada como ambientalmente sustentável? De acordo com o Regulamento da Taxonomia Verde, ela tem de contribuir substancialmente para pelo menos um dos seis objetivos ambientais sem prejudicar significativamente nenhum dos outros, respeitando-os em simultâneo (DNSH – Do No Significant Harm):
- Mitigação das alterações climáticas;
- Adaptação às alterações climáticas;
- Utilização sustentável e proteção dos recursos hídricos e marinhos;
- Transição para uma economia circular;
- Prevenção e controlo da poluição;
- Proteção e restauro da biodiversidade e
dos ecossistemas.
No âmbito da Taxonomia Europeia, os critérios técnicos referentes às atividades 6.5 (transporte rodoviário de passageiros) e 6.6 (transporte rodoviário de mercadorias), definem os parâmetros para a elegibilidade e o alinhamento das atividades de transporte rodoviário com os objetivos de mitigação das alterações climáticas e prevenção e combate da poluição.
O Regulamento da Taxonomia introduz uma distinção crítica entre elegibilidade e alinhamento. Muitas empresas confundem o simples enquadramento da atividade com a sua efetiva conformidade. Desta confusão podem resultar relatórios ESG enganadores ou, pior, decisões de investimento baseadas em pressupostos errados.
Eletrificação total é a única solução
A transição para veículos elétricos (VE) é frequentemente apresentada como a principal solução para os objetivos ESG das frotas corporativas. No entanto, esta decisão trata-se de uma simplificação perigosa cuja visão parcial pode levar a investimentos mal direcionados ou a greenwashing involuntário.
Para a redução das emissões, os combustíveis alternativos, como o gás natural comprimido (GNC), o hidrogénio e os biocombustíveis, apresentam-se como alternativas interessantes à eletrificação total, sobretudo em frotas pesadas ou de longa distância. No entanto, também aqui surgem desafios de implementação, tal como a escassez de pontos de abastecimento, o custo dos veículos e a dificuldade de obtenção de dados precisos que dificultam a sua inclusão.
Assim, embora promissores, continuam envoltos em incerteza regulamentar. Apesar das classificações claras na Taxonomia, a falta de consenso sobre a contabilização das emissões ao longo do ciclo de vida dos combustíveis, e a classificação desassociada das viaturas para determinadas tecnologias (como o hidrogénio azul ou biocombustíveis de segunda geração), gera um risco elevado de investimento para os gestores de frota.
Além disso, muitos destes combustíveis ainda não têm uma classificação definitiva no âmbito da regulamentação europeia, o que gera incerteza para os gestores de frota quanto ao seu contributo real para os objetivos ESG.
Do ponto de vista estratégico, esta instabilidade desencoraja a inovação e cria um paradoxo: tecnologias potencialmente mais sustentáveis são descartadas por não se enquadrarem nos moldes burocráticos atuais. Uma abordagem mais flexível e baseada em evidência científica poderia acelerar a adoção de soluções intermédias com benefícios reais.

Pneus: um detalhe com impacto
Para além das viaturas em si, há outros componentes da frota que têm impacto significativo. Um exemplo emblemático de como a sustentabilidade depende da atenção ao detalhe técnico é a classificação energética dos pneus utilizados que, muitas vezes, é negligenciado.
Esta questão coloca-se logo na aquisição, quando as empresas não têm qualquer controlo sobre o tipo de pneus com que as viaturas são fornecidas de origem. Tanto em aquisição direta como em contratos de renting, as viaturas são geralmente encomendadas com especificações standard definidas pelo fabricante ou pela locadora, o que limita a capacidade da empresa cliente em assegurar que os pneus cumprem os requisitos técnicos da Taxonomia, quando em alguns casos, nem existe produto que os cumpra.
Assim, um investimento considerado sustentável, como a aquisição de viaturas elétricas, que à partida seriam consideradas como sustentáveis e elegíveis ao abrigo da Taxonomia Europeia podem não estar alinhados com os critérios europeus apenas devido a uma variável não controlada: os pneus de origem. Esta situação ilustra a necessidade urgente de rever os processos de procurement e de incluir cláusulas contratuais específicas para garantir o grau de conformidade desde o início do ciclo de vida da viatura.
Este é um exemplo claro de como um detalhe aparentemente menor pode comprometer o alinhamento da frota com a regulamentação, mesmo quando a escolha tecnológica principal (veículos elétricos) é adequada.
A legislação europeia obriga à rotulagem dos pneus com informação sobre eficiência energética, aderência em piso molhado e ruído exterior. No entanto, esta informação nem sempre é considerada nas decisões de aquisição ou substituição de pneus, sendo muitas vezes determinada por critérios de custo imediato ou disponibilidade. A escolha de pneus com má classificação energética pode comprometer os ganhos obtidos com a eletrificação ou com a renovação da frota, através do aumento de consumo de energia e das emissões indiretas. Por outro lado, a monitorização e o report destes dados implicam um esforço adicional de recolha de informação, muitas vezes inexistente nas plataformas de gestão de frotas.
A necessidade de soluções abrangentes para recolha e tratamento de dados
Do ponto de vista analítico, este exemplo revela uma das principais fragilidades na implementação prática da Taxonomia: a falta de integração entre componentes técnicos e decisões estratégicas. Sem sistemas de monitorização contínua e reporting automatizado, torna-se quase impossível garantir o alinhamento com os requisitos técnicos atempadamente. Este cenário reforça a necessidade de plataformas digitais avançadas que consolidem dados de múltiplas fontes e assegurem a rastreabilidade completa da operação da frota.
Alinhar a frota com os princípios ESG não é apenas uma questão reputacional, é uma escolha estratégica que influencia o acesso ao financiamento, a resiliência regulatória e a eficiência operacional.
A redução de consumos, a antecipação de riscos legais e a valorização da marca estão entre os principais benefícios. Contudo, estes ganhos só se concretizam quando o alinhamento é real, mensurável e auditável. A dependência de relatórios incompletos podem transformar a oportunidade em risco.
As empresas devem adotar uma abordagem estratégica, orientada por dados e baseada em evidência que permita alinhar a sua gestão de frota com os princípios ESG e os requisitos da Taxonomia. Algumas medidas incluem:
- Definição de políticas de aquisição baseadas em critérios ESG, incluindo a classificação energética de pneus e veículos;
- Desenvolver KPIs ESG específicos para frotas, integrando variáveis como origem da energia, ciclo de vida dos componentes e sua pegada na ótica da gestão da frota;
- Integração de plataformas de gestão de frota que permitam recolher e analisar dados em tempo real sobre consumo, emissões, manutenção, pneus, entre outros;
- Priorizar contratos com fornecedores ESG-alinhados, com obrigações contratuais claras de partilha de dados;
- Criação de parcerias estratégicas com empresas de renting e fornecedores que tenham compromissos claros de sustentabilidade e capacidade de fornecer dados precisos;
- Implementar auditorias ESG independentes para validar dados e identificar inconformidades técnicas;
- Avaliar o custo oculto do não alinhamento, incluindo riscos regulatórios, reputacionais e de mercado.
A implementação de critérios ESG e do Report da Taxonomia Europeia na gestão de frotas não é uma tarefa simples, exige mudanças culturais, tecnológicas e operacionais. No entanto, é também uma oportunidade para as empresas se diferenciarem, aumentarem a sua eficiência e responderem às exigências de um mercado cada vez mais atento à sustentabilidade. As empresas que abraçarem esta transformação sairão reforçadas, não apenas como líderes ambientais, mas como organizações mais eficientes, resilientes e preparadas para o futuro.
Contudo, no dia 14 de abril de 2025, o Conselho Europeu aprovou a Diretiva Stop-the-Clock (2025/794/UE) — Diretiva de Suspensão Temporária —, uma das regras incluídas na Proposta Omnibus I da Comissão que procura simplificar a regulamentação em matéria de sustentabilidade relativamente ao reporte de informação e ao dever de diligência, que poderão introduzir também alterações muito substanciais no regulamento relativo à taxonomia.
Resta-nos esperar para perceber o que aí vem…

























