Estudo da EurotaxGlass’s avalia o impacto do “dieselgate” sobre o valor residual das marcas do grupo VW e as consequências para os motores a gasóleo

“O escândalo das emissões dos motores diesel EA189 da Volkswagen poderá ter implicações importantes na indústria automóvel”.

Esta é a principal conclusão a retirar do relatório “Dieselgate: What it means for the automotive industry” elaborado pelos técnicos da EurotaxGlass’s, após uma análise exaustiva às prováveis consequências e formas de resolução possíveis para o caso despoletado pelo maior construtor mundial de automóveis.

Em primeiro lugar, explica o relatório preliminar, “a Volkswagen terá de assegurar que o motor EA189 fica em conformidade com as normas de emissões” e “parece improvável que uma atualização de software, por si só, possa resolver o problema sem causar uma deterioração significativa no desempenho dos veículos ou aumentar o consumo de combustível”.

“A Volkswagen vai ter de recorrer a mudanças físicas, pelo menos em alguns dos modelos afetados”, frisa o documento inicial. “A questão é se existirá espaço suficiente para introduzir esse tipo de operação, por exemplo um DPF de maiores dimensões”.

Contudo, os reflexos desta situação complexa estão também a afetar o valor de mercado de outros construtores com forte implantação no diesel, nomeadamente alemães, apesar dos mais variados testes efetuados terem demostrado a inexistência de manipulação nas emissões nos carros das outras marcas germânicas.

Frisando a necessidade da União Europeia realizar testes de homologação mais rigorosos e mais próximos da realidade, a primeira versão do relatório da EurotaxGlass’s interroga-se também, até que ponto, a dimensão deste escândalo poderá ser suficiente para fazer variar o peso que os motores a gasóleo têm no mercado europeu ou até levar ao seu fim a curto ou a médio prazo.

Que impacto sobre o preço de novos e usados?

Numa primeira antevisão de cenários, quer no que respeita ao construtor Volkswagen, quer relativamente à procura de carros diesel, o relatório “Dieselgate: What it means for the automotive industry” elaborado pelos técnicos da EurotaxGlass’s começa por recordar que, nos últimos seis anos, a penetração no mercado diesel já tem vindo a cair em alguns mercados.

Alerta ainda para as consequências que poderão resultar numa quebra de popularidade dos automóveis a gasóleo novos e usados, com um previsível efeito de declínio dos valores residuais dos veículos a gasóleo.

“Muita coisa vai depender da capacidade da Volkswagen lidar com o ‘recall’ dos 11 milhões de veículos afetados. É seguro afirmar que a Volkswagen vai sofrer perdas de volume. Nessas circunstâncias, a reação natural de um construtor é utilizar incentivos, o que produzirá repercussões mais amplas sobre o sector ao intensificar a concorrência de preços. E aumentar os níveis de desconto em carros novos, naturalmente terá um impacto negativo sobre os preços dos veículos usados a breve prazo”, referia a vbersão inicial do relatório.

Uma atualização posterior, quando já são conhecidos os processos de regularização dos motores e os “timings” das operações, mostra que a nível europeu, em todas as marcas, observa-se um declínio geral dos valores residuais de 1% no diesel e de 1,5% nos modelos a gasolina.

Mas o impacto das revelações não parece afetar grandemente o valor residual dos modelos das marcas do grupo VW face aos restantes construtores presentes no mercado: “Actualmente, a diferença é ligeiramente inferior a 1%. Maior no Reino Unido e na Alemanha (aproximadamente 2%), enquanto em Espanha e na Suíça é de 1% e 0,5%, respectivamente. Não vemos nenhum impacto na Bélgica e na França”, esclarece o relatório posterior.

Por isso, “é difícil prever se a pressão sobre os valores residuais dos modelos da VW vão intensificar-se ou não. Simulamos o impacto econômico no cenário de um diferencial de 2% e a perda de valor para todos os carros com motor EA189 do grupo VW na Europa ascende a dois mil milhões de euros.”

 

Importância do diesel para a Europa

 

A EurotaxGlass’s relembra o peso que as motorizações a gasóleo têm na maioria dos países europeus, onde o diesel “tem uma forte herança e existem subsídios aos preços do combustível.” Ou ainda de como “os regimes de tributação à base de CO2 de alguns países têm contribuído para um TCO mais vantajoso do diesel, em especial para quilometragens anuais mais elevadas”.

“A pergunta é se os reguladores vão manter a sua postura ou gradualmente se distanciarão do diesel. Isso dependerá, em grande medida, de uma mudança da opinião pública devido ao ‘dieselgate’, mas também de qual será a taxa de sucesso do lóbi dos defensores dos motores diesel. É ainda muito cedo para saber, mas o risco de estarmos perto do ponto de inflexão aumentou”, alerta o documento inicial produzido pela EurotaxGlass’s.

No entanto, frisa o primeiro relatório, o risco de se retirarem vantagens fiscais para o diesel poderia traduzir-se em custos elevados para variados setores de atividade, devido à necessidade de inverter processos de gestão de frota.

Uma posterior atualização do documento antecipa um novo cenário: “Por causa do escândalo e das decisões das autoridades europeias em implementarem regulamentos mais rigorosos, os construtores automóveis podem hesitar quanto à continuação dos elevados investimentos em futura tecnologia para os motores a gasóleo. A redução deste investimento poderá afetar principalmente veículos de menores dimensões, que representam a grande fatia do mercado. Isto poderá piorar as perspectivas para o total do motor diesel”.