Após um ano de recuperação do mercado, a ACAP, associação que representa os construtores de automóveis presentes em Portugal, aproveitou o balanço de 2025 para não só reafirmar a importância estratégica do sector automóvel na economia nacional, mas também para lançar alertas claros quanto à sustentabilidade do atual modelo.
Em conferência de imprensa, que contou com a presença de Hélder Pedro, secretário-geral, Sérgio Ribeiro, presidente, e Pedro Lazarino, vice-presidente, a ACAP apresentou os resultados de 2025 e as prioridades que pretende colocar na sua agenda para 2026.

Sector automóvel é estrutural para a economia nacional
De acordo com dados recolhidos pela ACAP e pelo INE, o sector automóvel representa 8% da faturação total das empresas nacionais. Gera 45,8 mil milhões de euros em volume de negócios e emprega 176 mil pessoas em 37 mil empresas, assegurando qualquer coisa como 11,8 mil milhões de euros em receita fiscal (o equivalente a 19,4% das receitas totais do Estado).
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Estes números consolidam o automóvel como um do muitos pilares económicos do país, não apenas devido ao seu impacto industrial e comercial, mas também pelo seu contributo orçamental.
Mercado automóvel recuperou
Foram matriculados 225.039 ligeiros de passageiros novos em 2025 (+7,3% relativamente ao período homólogo de 2024). O mercado ultrapassou mesmo, pela primeira vez, os valores pré-COVID (+0,6% face a 2019).
Contudo, o mercado continua distante das quase 300 mil unidades anuais registadas no final da década de 90/início dos anos 2000. Para a ACAP, esta diferença revela um mercado estruturalmente comprimido, influenciado por fatores como a fiscalidade elevada, o envelhecimento do parque automóvel e a cada vez menor taxa de renovação de viaturas.
Rent-a-Car perde expressão
Representou 26% das matrículas em 2025, abaixo do valor de 28,8% registado em 2019. A redução do peso deste canal sinaliza uma menor capacidade de absorção de unidades novas por parte das operadoras de RaC que, historicamente, têm contribuído para a renovação acelerada do parque automóvel.
Eletrificação avança, porém o contexto estrutural limita o seu impacto
Portugal está à frente da média europeia no que respeita à eletrificação automóvel: 23,2% das matrículas de ligeiros de passageiros correspondem a veículos exclusivamente movidos a bateria (BEV) – valor acima da média europeia de 17,4%. As 52.256 unidades BEV matriculadas representam um crescimento de 25,1% (em 2024 tinham sido matriculados 41.757 ligeiros de passageiros elétricos, em 2025 foram matriculadas 52.256 unidades).
Apesar deste desempenho expressivo, a ACAP destaca que o impacto da eletrificação não se traduz automaticamente numa renovação efetiva do parque, problema que reside na base instalada.
Usados importados e a distorção estrutural do mercado
Em 2025 entraram no nosso país 120.787 VLP usados, um volume que equivale a 54% das matrículas de veículos novos.
Esta realidade cria uma distorção estrutural: enquanto o mercado de novos cresce de forma moderada e com maior peso na eletrificação, a entrada massiva de usados importados coloca em circulação viaturas mais antigas e maioritariamente movidas a combustíveis fósseis.
Com uma idade média de 7,9 anos, estes veículos contribuem, segundo a ACAP, para:
- Atrasar a redução média de emissões do parque automóvel;
- Manter elevada a dependência do gasóleo (um terço dos carros importados são diesel);
- Agravar a idade média do parque;
- (Potencialmente) aumentar riscos de segurança rodoviária.
Para atenuar este problema, a ACAP propõe sujeitar os usados importados à inserção obrigatória no SIRER – Sistema Integrado de Registo Eletrónico de Resíduos, garantindo o pagamento das contribuições ambientais às entidades gestoras de resíduos automóveis (Valorpneu, Valorcar e Sogilub). Uma medida que visa a introdução de um maior equilíbrio concorrencial, ao mesmo tempo que asseguraria que os veículos importados contribuiriam financeiramente para o sistema ambiental português.
Envelhecimento do parque automóvel nacional atrasa a descarbonização
Em Portugal há 1,6 milhões de veículos com mais de 20 anos de idade. A idade média dos ligeiros de passageiros é de 14,1 anos, o dobro do que era no ano 2000.
Mais de metade (55%) do parque é movido a gasóleo, 36% a gasolina e apenas 9% corresponde a energias alternativas, sendo que apenas 3% do parque automóvel nacional é movido exclusivamente a bateria.
Dados que evidenciam uma contradição estrutural: Portugal apresenta uma boa quota de elétricos nas matrículas, mas um parque automóvel muito envelhecido.
Isso significa que ainda há um longo caminho a percorrer na descarbonização do parque automóvel nacional.
Que impacto para empresas e gestores de frota?
As empresas continuam a ser o principal motor da eletrificação. As frotas puxam os BEV e os PHEV para números interessantes, muito por culpa da fiscalidade (Tributação Autónoma reduzida ou nula ou dedução do IVA, por exemplo).
No entanto, a entrada significativa de usados importados pode diluir o impacto ambiental da renovação de frotas empresariais. Ao mesmo tempo, o envelhecimento do parque aumenta a pressão sobre a fiscalidade e coloca restrições à circulação, limitando assim a ação das empresas.
Enquanto as empresas suportam a receita gerada pela Tributação Autónoma, os usados importados que entram no mercado entram com um enquadramento diferente e menor custo inicial, o que pode mesmo dar origem a uma distorção concorrencial indireta, uma vez que o mercado de usados com menor custo reduz pressão para renovação, a idade média do parque aumenta e a política fiscal perde concorrência ambiental. O esforço fiscal das empresas numa renovação de frota pode muito bem estar a ser neutralizado por um mercado paralelo de modelos importados.
Há também um impacto, ainda que potencial, nos valores residuais e no TCO, uma vez que um mercado “invadido” por usados importados pode sentir pressão nos valores residuais, além de que as previsões de TCO podem ser afetadas. Num contexto em que o residual ainda permanece como um fator crítico nos contratos, esta pressão pode ter consequências financeiras, ainda que indiretas, para as empresas.
Três riscos que continuam a ameaçar o sector
A ACAP aponta, assim, para três riscos estruturais:
- Ambiental – a descarbonização avança, sim, mas a um ritmo mais lento do que aquele que os números de matrículas de veículos eletrificados sugerem;
- Fiscal – menor renovação do parque automóvel pode vir a comprometer receitas futuras associadas a veículos novos;
- Segurança e eficiência energética – manutenção de veículos mais antigos e menos eficientes em circulação aumenta, bem como os riscos de sinistralidade rodoviária, em virtude de potenciais defeitos presentes nestas unidades importadas.

























