Há empresas em Portugal a aproveitar a norma EN 15940 como uma forma eficaz de mitigar as emissões das suas frotas automóveis, sem abdicar da utilização das viaturas diesel existentes. Trata-se de uma solução de transição prática, que evita a dependência da infraestrutura de carregamento elétrico e contorna as limitações de autonomia dos veículos elétricos, especialmente em frotas operacionais
A EN 15940 é uma norma do Comité Europeu de Normalização (CEN) que define os requisitos de qualidade para combustíveis diesel parafínicos, uma categoria de combustíveis sintéticos ou renováveis que se apresentam como alternativas mais limpas ao gasóleo tradicional. Caracterizam-se por um baixo teor de impurezas, como enxofre e compostos aromáticos, o que favorece uma combustão mais eficiente e menos poluente. Os principais tipos incluem:
- HVO (Hydrotreated Vegetable Oil): combustível renovável obtido a partir de óleos residuais e gorduras animais;
- GTL (Gas-to-Liquid): combustível sintético resultante da conversão de gás natural;
- BTL (Biomass-to-Liquid): derivado de biomassa, ainda com presença limitada no mercado.
A norma estabelece parâmetros técnicos como densidade, viscosidade, ponto de inflamação, estabilidade e teor de enxofre, garantindo que estes combustíveis sejam seguros, estáveis, compatíveis com motores diesel convencionais e com desempenho equivalente ao do gasóleo fóssil. Assim, permite às empresas adotá-los sem necessidade de alterar os veículos existentes ou recorrer à eletrificação, assegurando uma redução imediata nas emissões de gases com efeito de estufa e, com isso, maior responsabilidade ambiental.
Que veículos podem utilizar HVO100?
Vários construtores automóveis já confirmaram oficialmente a compatibilidade dos seus motores diesel com o HVO, em especial com o HVO100 (100% puro), de acordo com os requisitos da EN 15940. Essa compatibilidade aplica-se sobretudo a motores Euro 6 mais recentes, embora haja modelos anteriores também autorizados a utilizá-lo. No final de 2024, a Stellantis anunciou que todos os seus automóveis de passageiros e veículos comerciais ligeiros estão validados para uso de HVO, incluindo um vasto leque de modelos com motorizações Diesel Euro 5 e Euro 6 já em circulação.
Outros fabricantes como Ford, Mercedes-Benz, Renault e Volkswagen também confirmaram a compatibilidade de alguns dos seus motores diesel com o HVO. A referência a estes construtores justifica-se pelo facto de concentrarem grande parte das frotas comerciais utilizadas pelas empresas em Portugal, momeadamente no sector dos transportes de mercadorias, em viaturas ligeiras e pesadas, onde a eletrificação afigura-se mais difícil de implementar.
No entanto, o HVO também é aplicável a veículos ligeiros de passageiros. Embora seja aconselhável confirmar previamente com o representante da marca/modelo e, para efeitos de garantia, obter uma declaração de conformidade com o HVO100, teoricamente todos os modelos Euro 6 estão preparados para o utilizar. Na página www.glpautogas.info, é possível consultar uma lista atualizada de marcas e modelos compatíveis com HVO100.
Preço e créditos de carbono
Ao permitir a comercialização e utilização de combustíveis alternativos com menor impacto ambiental, dentro de um quadro legal padronizado, a norma EN 15940 não só viabiliza que as empresas cumpram as metas europeias de redução de emissões, como também possibilita o acesso a créditos de carbono ou outros benefícios associados, desde que o uso seja devidamente documentado e a redução efetiva de CO2 seja demonstrada.
Este enquadramento contribui para atenuar um obstáculo relevante: os preços praticados pelos fornecedores nacionais de HVO100 são, em média, entre 20% e 30% superiores ao do gasóleo rodoviário, dependendo naturalmente da capacidade negocial de cada empresa.
Como o HVO é um combustível capaz de reduzir emissões e cuja produção, dependendo da matéria-prima e do processo, pode envolver fontes renováveis, a sua adoção permite às empresas reduzir as emissões diretas da frota. Estas emissões de âmbito 1 (Scope 1), segundo o GHG Protocol, são por isso quantificáveis e reportáveis nos inventários de carbono.
Para que essas reduções sejam oficialmente reconhecidas ou convertidas em créditos de carbono, é essencial utilizar HVO certificado pela EN 15940, garantir que o fornecedor fornece documentação sobre a origem do biocombustível e o fator de emissão associado, e implementar um sistema de monitorização, reporte e verificação dos consumos e emissões.
Na prática, se uma empresa num ano substituir 200 mil litros de gasóleo por HVO100 e comprovar um fator de redução de 90%, poderá declarar uma diminuição de quase 500 toneladas de CO2. Desde que certificados, estes dados podem integrar o relatório de sustentabilidade da empresa e contribuir para metas de neutralidade carbónica ou, se verificados por entidade acreditada, serem convertidos em créditos de carbono.
No seu primeiro Relatório de Sustentabilidade e Contas elaborado segundo as novas normas ESRS, o grupo Luís Simões – uma das maiores empresas de transporte e logística em Portugal – explicou que, para cumprir as metas de descarbonização a que se propôs, desenvolveu um plano de ação que inclui o uso de biocombustíveis como o HVO nas emissões diretas (Scope 1). Já nas emissões indiretas (Scope 3), integra a adoção de uma política de utilização de HVO também no transporte subcontratado.
Renováveis em movimento
O Tour d’Europe é uma iniciativa europeia que promove o uso de combustíveis 100% renováveis como solução imediata para reduzir as emissões no sector dos transportes. Organizada por diversos agentes da indústria energética e automóvel, esta caravana de veículos movidos a combustíveis renováveis passou por Portugal entre 21 e 24 de abril, com abastecimentos realizados com Diesel Nexa 100% Renovável (HVO), da Repsol, e com ZERO Diesel B100 e ZERO Diesel HVO, da PRIO.
A Repsol e a PRIO estão entre as marcas que já disponibilizam HVO100 em Portugal. Também a Moeve (antiga Cepsa) e a Galp oferecem este combustível, através da gama Galp Advance HVO. Importa referir que, ao contrário de outros países europeus, a oferta de HVO100 em Portugal continua, por enquanto, limitada a clientes empresariais, em postos localizados próximos das principais áreas metropolitanas. No entanto, com o avanço do projeto HVO@Galp, desenvolvido na refinaria de Sines, e com o crescimento esperado da procura, alguns operadores já anunciaram a intenção de disponibilizar o HVO100 em postos públicos ao longo dos próximos dois a três anos.



























