Um recente relatório da Boston Consulting Group e da OpenAI (Will AI Become the Best Car Sales Advisor?) prevê que, até 2030, mais de 40 milhões de processos de compra automóvel serão influenciados por Inteligência Artificial. As marcas que investirem agora poderão aumentar as vendas em 20%. Quem hesitar arrisca perdas superiores a 15%.
A compra de um automóvel continua a ser uma experiência frustrante para muitos consumidores. Múltiplos separadores abertos no browser, folhas de Excel com simulações financeiras, telefonemas não atendidos, deslocações a stands para descobrir que o modelo já não está disponível. E, no fim, pilhas de papelada.
Um outro estudo da BCG (Innovation Has Transformed the Car but Not Yet the Car Buying Experience?) confirma. Quase metade dos consumidores que compraram carro nos últimos tempos classificaram a experiência como insatisfatória.
A solução que se está a desenhar é radical na sua simplicidade: “Hey, Siri, preciso de comprar um carro novo”. Cinco dias depois, um automóvel novo está à porta de casa. Financiamento aprovado, matriculado, seguro ativo e wallbox instalada. Pelo meio, um test-drive agendado automaticamente.
Este cenário não é ficção científica. É tecnicamente possível hoje.
Como funciona na prática
O relatório conjunto da BCG e da OpenAI apresenta uma visão detalhada do processo. A inovação não está na compra online, pois isso já existe. O ponto de viragem é permitir que um assistente inteligente trate de tudo através de uma conversa natural.
Um exemplo prático:
- Utilizador: “Hey Siri, preciso de comprar um carro novo”.
- Assistente: “Quanto podes gastar por mês? Vais usar o carro para quê? Preferes elétrico, híbrido ou a combustão?”
- Utilizador: “Até 400 euros mensais. Trabalho durante a semana, viagens de 200 km ao fim-de semana. Tenho garagem com tomada.”
- Assistente: “Tens carro para retoma?”
- Utilizador: “Sim, um Civic.”
- Assistente: “Deixa comigo! Em poucos minutos trago-te opções com custo total, prestação, energia, manutenção e seguro incluídos. Queres agendar test-drive?”
- Utilizador: “Sábado de manhã.”
- Assistente: “Feito. Para avaliação remota do Civic, envia algumas fotos e um vídeo rápido.”
A orquestração por trás da conversa
Por trás desta simplicidade opera uma infra-estrutura complexa. O assistente consulta em tempo real os stocks de múltiplos concessionários, cruza campanhas promocionais, calcula o custo real de propriedade (combustível, manutenção, pneus, seguros, impostos). Simultaneamente, comunica com bancos para avaliar solvência, com seguradoras para simular apólices, com empresas especializadas para verificar a disponibilidade de wallboxes. Tudo coordenado de forma integrada, sem lapsos.
O sistema assenta em agentes de IA “accionáveis”. Estes não apenas respondem a perguntas, como executam tarefas. Agendam visitas, preenchem formulários, iniciam processos de financiamento, geram contratos. O relatório identifica dois papéis centrais. O primeiro é o conselheiro de produto, que ajuda a escolher entre configurações, preço, autonomia e tecnologia. O segundo é o gestor de negócio, que encontra a melhor combinação de financiamento, incentivos, seguro e retoma.
O test-drive mantém-se essencial
O test-drive permanece insubstituível. Nenhuma IA simula o prazer de condução, a reação ao volante, o silêncio de um elétrico. Mas até este momento é optimizado. A rota é personalizada, o vendedor está previamente informado sobre as preferências do cliente e as funcionalidades prioritárias são demonstradas. A experiência torna-se eficaz e relevante.
Burocracia digital e segura
A papelada que se arrastava por dias é agora tratada de forma digital. Com autorização do cliente, o assistente pré-preenche formulários, lança verificações automáticas, gera simulações, propõe financiamento, elabora a apólice de seguro e permite assinatura eletrónica qualificada, legalmente vinculativa e auditável. Casos excecionais são automaticamente encaminhados para especialistas humanos.
No final, o carro chega à hora combinada. Matriculado, seguro ativo e wallbox instalada. O proprietário recebe um tutorial detalhado sobre carregamentos, modos de condução, manutenção preventiva e optimização de custos energéticos. A app do veículo vem configurada com alertas úteis.
Três estratégias para as marcas
O relatório identifica três caminhos estratégicos para os fabricantes. O primeiro passa por garantir presença em assistentes genéricos como o ChatGPT, estruturando a informação de forma acessível a estes sistemas. O segundo caminho envolve estabelecer parcerias com marketplaces especializados, que se transformam em plataformas de recomendação inteligentes. O terceiro, mais ambicioso, consiste em criar assistentes próprios, profundamente personalizados e capazes de integrar históricos de compra, preferências, padrões de condução e dados de telemetria. Estas estratégias são complementares e, potencialmente, mais eficazes quando combinadas.
Quem ganha com a mudança
Os consumidores beneficiam de mais tempo, maior clareza e decisões mais informadas. As marcas ganham contacto direto com os clientes e oportunidades de oferecer serviços adicionais relevantes. Os concessionários deixam de ser processadores de papelada para se tornarem verdadeiros centros de experiência, mantendo a confiança de sempre, mas agora com o apoio inteligente da IA. Por sua vez, as financeiras e seguradoras veem a integração, a rapidez de resposta e a qualidade das condições tornarem-se fatores determinantes.
Os riscos a gerir
A BCG e a OpenAI alertam, no entanto, para desafios reais. Expectativas irrealistas, falhas técnicas, enviesamentos nos algoritmos, abusos publicitários disfarçados de recomendações e, sobretudo, a proteção da privacidade. Estes riscos exigem regulamentação firme, auditoria contínua e um compromisso com ética e transparência.
O precedente do turismo
A indústria do turismo oferece um exemplo ilustrativo. Em 2025, um em cada cinco viajantes no Ocidente e dois em cada três na Ásia usaram modelos de linguagem como o ChatGPT para planear férias. De forma natural, os consumidores descobriram que era mais rápido, fácil e eficaz do que os filtros convencionais dos sites de reservas.
A indústria respondeu, integrando estas ferramentas rapidamente. O sector automóvel segue o mesmo caminho, com a diferença de que comprar um carro é muito mais complexo. Por isso, o impacto da IA será mais profundo.
O que falta agora
As tecnologias já existem. Recomendação conversacional, avaliação remota de retomas, marcação digital de test-drives, assinatura eletrónica e coordenação logística. O que falta é a integração total. Segundo o relatório, isso deverá acontecer nos próximos 12 a 24 meses. Dentro de três a cinco anos, será o novo normal, dizem.
IA nos bastidores, emoção ao volante
O que muda não é um robô a vender carros. O que muda é a compra transformar-se num fluxo contínuo de decisões informadas, com automatismos discretos, mas eficientes, orquestrados por uma conversa. A tecnologia trabalha nos bastidores. O utilizador permanece no centro.
Como conclui o relatório da BCG e da OpenAI, os vencedores serão aqueles que, desde já, construírem a infraestrutura, estabelecerem as parcerias certas e desenvolverem as competências organizacionais necessárias para liderar num mundo orientado pela IA.
Se tudo for feito com seriedade, clareza e respeito pela privacidade, o resultado será simples: menos de uma semana entre a conversa inicial e o carro na garagem. As dúvidas que paralisavam decisões transformam-se em recomendações fundamentadas. A burocracia que antes consumia dias resolve-se em minutos. A tecnologia não se vê. Sente-se apenas na ausência de fricção. O que permanece inalterado é o essencial, esse momento em que se abre a porta, se ajusta o banco e se acelera pela primeira vez. Isso continua exclusivamente humano.


























